Trinta anos. É quanto tempo Cindy Cohn está travando um combate corpo a corpo com o governo federal sobre algo que a maioria de nós acha que é garantido: o direito de ter um pensamento privado, uma conversa privada, uma vida privada—tudo isso vivendo inteiramente na internet.
E nos dias 13 e 14 de abril, ela traz essa batalha para Washington D.C.
A Mulher Que Disse ‘Não’ aos Federais (Repetidas Vezes)
Cohn não é nenhuma teórica de política abstrata. Já argumentou diante de juízes federais. Já encarou de frente os arquitetos de vigilância da NSA. Manteve a linha enquanto empresas de tecnologia cediam. Seu novo livro, Privacy’s Defender: My Thirty-Year Fight Against Digital Surveillance, é parte memória, parte roteiro legal—e chega num momento em que a internet parece menos um bem comum e mais um panóptico.
Dois eventos em D.C. vão te dar acesso direto a ela. O primeiro, organizado pela American Association of Public Broadband e pela EFF na segunda-feira, 13 de abril na Busboys & Poets (18h30), coloca Cohn junto com Gigi Sohn, diretora executiva da AAPB. O segundo, terça-feira, 14 de abril no True Reformer Building (18h), traz Chelsea Horne, professora sênior na American University, em conversa com Cohn sob a bandeira de Women in Security and Privacy.
Aqui está o que importa: os dois eventos lidam com uma pergunta que mantém advogados de privacidade acordados à noite.
Dá pra Ter Privacidade Quando Você Vive Online?
Não é uma pergunta retórica. É a pergunta. E Cohn passou três décadas provando que a resposta não é automaticamente ‘não’—mas exige que alguém lute por isso.
“Privacy’s Defender é um relato convincente de uma vida bem vivida e um chamado inspirador à ação para a próxima geração de defensores das liberdades civis.” — Edward Snowden
Esse respaldo vem de alguém que sabe. Snowden expôs o aparato de vigilância em massa da NSA em 2013. Cohn estava travando batalhas semelhantes muito antes das revelações, e tem lutado ainda mais forte desde então. Qual é a diferença entre o momento de Snowden e o nosso? Na época, vigilância parecia um problema do governo. Agora está embutida em cada app, cada dispositivo, cada interação em plataforma.
O segundo evento em D.C. foca em acesso federal a dados e direitos digitais. O envolvimento de Chelsea Horne sinaliza que isso não é só sobre mágoas históricas—é sobre o que vem a seguir, o que Washington está planejando, o que você deveria estar se preparando para enfrentar.
Por Que Agora? Por Que D.C.?
Timing é tudo. Estamos num momento em que sistemas de IA estão puxando dados humanos em escala, onde criptografia está sob cerco, onde o governo está tentando acessar portas traseiras em comunicações criptografadas (de novo), e onde até as empresas que fingem se importar com sua privacidade estão monetizando tudo sobre você.
A perspectiva de Cohn—endurecida por décadas lutando as mesmas batalhas com novos disfarces—é genuinamente rara. Ela não é uma lobista buscando compromisso. É alguém que viu padrões se repetirem e está tentando armar a próxima geração para quebrá-los.
Os lucros do livro vão direto para a EFF, a organização que Cohn lidera. Isso não é virtue signaling corporativo. A Electronic Frontier Foundation realmente faz o trabalho legal—as ações judiciais, os pareceres, o trabalho chato e sem glamour que impede as liberdades civis de desaparecerem na escuridão.
A Visão Maior
O que é marcante sobre o timing de Cohn não são os eventos em si—é o que eles representam. Privacidade não está em alta agora. IA está. Regulação está. Mas privacidade é o substrato sobre o qual tudo o mais se assenta. Você não pode ter consentimento real sem privacidade. Não consegue ter autonomia genuína sem ela. Não dá pra ter democracia sem a capacidade de pensar, se comunicar e se organizar fora do panóptico.
Cohn tem dito isso por 30 anos. Washington finalmente está começando a escutar. A questão é se essa escuta chega antes do estrago ficar permanente.